Jovens, empreendedores e vencedores

Conheça a história de jovens que transformam boas ideias em empresas inovadoras

Por Gabriella Ramos

“Empreender é acreditar em um sonho e fazer com que mais pessoas acreditem nele, transformar uma ideia em uma prática e insistir sempre”. Essa é a crença de André Campelo, 33 anos, CEO e cofundador da Dentro da História. Analista de sistemas por formação, André também é apaixonado por tecnologia e internet – paixão que ajudou a trilhar seu caminho de sucesso.

Junto com o Flávio Aguiar, cofundador do Dentro da História, Campelo também fundou o Widbook, uma rede social de escrita colaborativa. “Conquistamos 200 mil usuários e 60 mil livros escritos. Apesar desse sucesso de demanda, não conseguimos provar o modelo de negócio da empresa, e decidimos usar a experiência que acumulamos na Widbook em uma nova empreitada”.

André conta que o momento de virada aconteceu quando uniram tecnologia, educação e crianças. “Sou pai da Letícia, que hoje tem seis anos, e também foi fonte de inspiração para essa nova jornada. Eu e Flávio já tínhamos imaginado criar uma extensão do Widbook Kids com quadrinhos e desenhos para que as crianças fossem estimuladas a interagir com as histórias. Então, surgiu a ideia: e se colocássemos as crianças como protagonistas da história ao lado dos seus personagens favoritos?”.

E assim nasceu a Dentro da História, uma plataforma digital que permite à criança criar o seu próprio avatar, versão desenhada de si mesma. Ela se torna personagem principal das histórias junto de personalidades conhecidas do universo infantil, como Galinha Pintadinha, Patrulha Canina e Turma da Mônica.

Maurício de Sousa acreditou no projeto e teve um papel fundamental no lançamento da Dentro da História, realizado na Bienal do Livro de São Paulo, para um público de mais de 800 mil pessoas. O lançamento aconteceu no estande “A Fantástica Fábrica de Sonhos”, com a Maurício de Sousa Produções. “Foram mais de 15 mil personalizações feitas na hora pelo público, que usava nossos totens para criar seus personagens e se colocar nas histórias. Chamamos a atenção da imprensa, e o tráfego em nossa plataforma online disparou”, conta.

“Nosso faturamento atingiu 12 milhões de reais em 2018, o dobro de 2017. No mesmo ano, vendemos 150 mil livros”, relata André. A meta dos empreendedores é chegar a um milhão de crianças impactadas pela empresa. Além disso, começaram também a primeira expansão internacional da Dentro da História, para a Espanha. 

Aposta na mobilidade

Enquanto André Campelo encontrou a oportunidade de empreender no mercado editorial, Renato Freitas, fundador da 99 e da Yellow, apostou na mobilidade. “Em 2012, eu e Ariel Lambrecht fundamos a 99, junto com o Paulo Veras. A ideia veio de uma inspiração que o Ariel teve ao visitar a Alemanha”, relembra. “Depois de vendermos a 99 para a Didi, fundamos a Yellow, porque queríamos resolver os problemas de mobilidade que os carros não resolvem”.

Com a venda do aplicativo de transporte 99 para a Didi Chuxing, ele se transformou no primeiro unicórnio brasileiro, avaliado em US$ 1 bilhão. Para Freitas, essa conquista trouxe a sensação de missão cumprida. “A gente não imaginava isso quando começou. Acho que o termo unicórnio nem existia quando começamos. Nosso empenho sempre foi para melhorar a vida do maior número de pessoas possível, e conseguimos isso, com milhões de pessoas se transportando pelo nosso app, e centenas de milhares de motoristas ganhando dinheiro dirigindo”.

A vontade de crescer, no entanto, era incessante. Prontos para encarar novos desafios, Freitas, Lambrecht e Veras embarcaram na Yellow, sua nova empreitada. A startup tem como proposta o aluguel de bicicletas e patinetes elétricos por aplicativo, usando um modelo dockless, ou seja, sem estação fixa. É possível encontrar as bicicletas e os patinetes parados em parques e calçadas.

Para Freitas, a 99 e a Yellow só prosperam graças à existência de motivação e propósito dentro das equipes. “Na 99 e na Yellow, o foco em contratar as melhores pessoas era muito grande, além de fazer as pessoas ganharem mais responsabilidade com base no mérito”, conta. “Quando decidi começar a Yellow, um número grande de pessoas da 99 veio me procurar pra trabalhar comigo. O fato de as pessoas gostarem de trabalhar ao meu lado e quererem construir comigo meus próximos sonhos fez com que eu me sentisse muito orgulhoso”.

Renato defende o empreendedorismo como a melhor forma de mudar o mundo, por meio da criação de empregos ou resolvendo os grandes problemas da população. “A economia se beneficia quando tem mais gente ganhando dinheiro, quando tem opções mais baratas, quando as pessoas ganham tempo, e até quando têm mais opções de lazer”, pontua. “Eu passei por muitos desafios em quase todas as áreas: financeira, gestão, planejamento, marketing, tecnologia… A lista é grande. Mas fui atrás das soluções e não sosseguei enquanto não via o problema resolvido. Ter uma missão pela qual você seja apaixonado ajuda muito nisso também”.

Novos empreendedores

O impacto da atuação de jovens empreendedores como André Campelo e Renato Freitas na economia deve crescer nos próximos anos. A pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2018 mostrou um crescimento do público jovem (18 a 24 anos) entre os novos empreendedores. “Apesar de ser a faixa com menor taxa de empreendedorismo estabelecido, os jovens de 18 aos 24 anos (5,7%) representam cerca de 1,5 milhões de pessoas que empreendem e que conseguiram manter seu negócio em funcionamento por mais de três anos e meio”, comenta Cíntia Maretto, consultora do SEBRAE-SP.

O comportamento da juventude está mudando, ocasionando um aumento constante dessa taxa e o crescimento do empreendedorismo por oportunidade. “Muitos não sonham mais com o carro próprio como ocorria no passado. A internet é vitrine para iniciativas que acabam virando negócios e o ambiente de economia colaborativa, que incentiva o empreendedorismo”, explica Cíntia.

Essa mudança de mindset pode ser explicada, entre outros fatores, pela dificuldade do jovem de se inserir no mercado de trabalho, o que muitas vezes acontece devido à falta de postos disponíveis e também à pouca experiência.  “Em sua maioria, os jovens empreendedores do país são inovadores, possuem um propósito e buscam a auto realização, além de independência financeira e horário flexível”, revela Maretto.

A pesquisa GEM revela ainda que os empreendedores com diploma superior tiveram um aumento, passando de 6% para 9,7%. “A participação dos empreendedores iniciais que ganharam três ou mais salários mínimos subiu de 24% (2017) para 29,5% em 2018. Cerca de 37% dos estudantes de faculdades de ponta miram carreiras em startups, sendo que 21,3% querem ter a sua própria (pesquisa realizada pela startup Spry em encomenda realizada pelo fundo de investimentos Canary, que tem entre seus apoiadores Mike Krieger, do Instagram, e David Vélez, do Nubank)”, completa Cíntia Maretto.

Tecnologia: caminho para o sucesso

Muitos jovens têm tirado seus sonhos do papel e transformado ideias em empresas de sucesso, grande parte com o auxílio da tecnologia. Sérgio Costa, Guilherme Rogieri e Thiago Rodines são os empreendedores por trás da Wide Software, e também do primeiro produto lançado pela empresa, o WSpot.

“O WSpot foi o primeiro produto da Wide e foi uma oportunidade de mercado que enxergamos em 2013, quando eu tinha contato com fabricantes de equipamentos Wi-Fi e todos eles demonstravam uma dor que o mercado tinha e eles não conseguiam atender: oferecer Wi-Fi através de um auto cadastro”, conta Thiago. O grupo foi pioneiro no Brasil, além de ter passado por uma coincidência positiva em 2014, quando foi sancionado o Marco Civil da Internet, obrigando estabelecimentos que oferecessem Wi-Fi a registrar os dados de quem estava acessando e armazená-los por 12 meses.

Coragem para sonhar

Camila Florentino, atualmente com 29 anos, fez em 2013 estudos acadêmicos na USP sobre como a tecnologia poderia aumentar a eficiência do mercado de serviços para eventos na cidade de São Paulo, reduzindo assimetria de mercado.

“A complexidade na compra e venda de serviços para eventos me provocou tanto que em 2015, fundei a Celebrar com duas mulheres incríveis: A Monna, mestre em Ciências da Computação pelo IME USP e desenvolvedora fullstack, e a Patrícia, produtora de eventos com experiência em Costumer Success nos Parques da Disney e no SP Convention Bureau”, conta. O objetivo da plataforma é conectar uma comunidade de profissionais de serviços para eventos com variadas demandas, de diferentes organizadores – aumentando a eficiência de mercado.

Camila confessa que, apesar de sentir orgulho do seu trabalho todos os dias, sentiu-se muito feliz por suas realizações em uma ocasião especial. “Um dia notamos que, dos mais de R$ 2 milhões de reais transacionados pela plataforma Celebrar, 75% foi vendido por profissionais de eventos residentes das periferias de São Paulo. Nesse momento eu percebi que mudar o mundo não era apenas um sonho meu, é algo real e que pode ser escalável”.

A vontade de mudar o mundo também foi força motriz de Luiz Renato Mattos, de 26 anos.  Depois de entrar na faculdade, Luiz começou a sentir na pele os problemas de mobilidade urbana que cercavam o transporte público em São Paulo. Foi então que nasceu a OnBoard Mobility, que possibilita a recarga de crédito de passagens de transporte pelo aplicativo, disponível para celulares Android e iOS. Além disso, a startup criou um chatbot de recargas, recurso totalmente inédito mundialmente.

Não faltam conquistas para a OnBoard Mobility celebrar, já que a startup recebeu diversos prêmios no país, a maioria relacionada à inovação e cidades inteligentes. “Fico feliz por ter criado, junto com o meu time, uma solução pioneira para o maior sistema de transporte público sob pneus do mundo e que já impactou a vida de milhares de pessoas”, diz Mattos.

Já Otávio Dutra, 29 anos e CEO da Partyou, encontrou sua oportunidade de empreender no universo das fintechs. “Nosso objetivo é facilitar todas as transações no ambiente da universidade, aproveitando a rede entre alunos, negócios e entidades”, conta. “A plataforma funciona como um sistema de gestão financeira. Fornecemos máquinas de cartão e venda online para as entidades estudantis e integramos as informações de venda no sistema, para visualização fácil de quem cuida do financeiro, independente de experiência prévia com finanças”.

A startup recentemente abriu a possibilidade de universitários investirem na empresa. A partir de uma campanha de equity crowdfunding, a Partyou captou 139 sócios das universidades em tempo recorde de cinco horas. Para o futuro, os planos são ainda mais ambiciosos. “Em 2019 lançaremos a conta digital, com o objetivo de crescermos e, em 2020, criarmos um banco que é sinônimo de ser jovem, universitário e dono das próprias ações, que é o que acreditamos que todos são”. A disposição para assumir riscos está presente em todas as histórias de jovens empreendedores de sucesso, como reforça Guilherme Rogieri, da Wspot. “É preciso ter resiliência e aprender com os erros, além de saber lidar com os riscos e incertezas”. Luiz Renato Mattos, da OnBoard Mobility, concorda. “Minha dica para alguém que está disposto a assumir os riscos de empreender é: Seja ingênuo e curioso. A ingenuidade te faz acreditar que você é capaz, te levando mais longe e a curiosidade vai te guiar em algumas situações”.

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