Eventos como estratégia para alavancar o agronegócio

Expansão do setor afeta positivamente o mercado de eventos, realizados como estratégia para lançamentos de produtos, networking e conhecimento técnico

O Brasil é o primeiro colocado no ranking mundial em produção e exportação de açúcar, café e suco de laranja. O primeiro colocado em exportação de carne bovina, carne de frango e grão de soja, segundo dados da USDA. 19,82% da População Ocupada brasileira é registrada em atividades relacionadas ao agronegócio. Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade Texas A&M aponta o Brasil como um potencial competidor e consumidor de produtos agrícolas dos EUA até 2040.

A expressividade do agronegócio na economia brasileira se expande para setores ligados indiretamente à categoria, inclusive no mercado de eventos. A participação em feiras, congressos e seminários relacionados ao agronegócio é muito utilizada como estratégia para várias empresas que precisam escolher, entre a diversificada gama de eventos, qual corresponde às suas principais expectativas, sejam elas obter novas informações, conhecer novas tecnologias, fazer networking, lançamento de produtos, promoções ou fechamento de negócios.

Para Marcelo Carvalho, CEO e fundador da Agripoint, organizadora do Dairy Vision, evento voltado para o setor lácteo que acontece no Expo D. Pedro, a participação em eventos do mercado de agronegócio é importantíssima para que o profissional entre em contato com o que está acontecendo no mundo. “É um momento em que ele vai encontrar novas tecnologias que podem ser incorporadas nos produtos e serviços e encontrar pessoas. Por mais que exista, hoje, todo um mundo digital, e que é importantíssimo, você tem momentos em que o encontro pessoal é importante e precisa ser feito. É um pouco de estratégia, é um pouco olhar outros negócios, olhar um pouco a empresa fora dela, afinal, o cliente está fora da empresa, o mundo acontece fora da empresa” declara.

No caso do Dairy Vision o principal diferencial é o conteúdo e geração de leads para serem trabalhados posteriormente. O foco da organização é trazer para o evento apenas um nicho específico: decisores do setor lácteo, que movimenta 70 bilhões de reais por ano no Brasil. O evento foi inspirado no europeu Global Dairy Congress e traz discussões sobre estratégia, marketing, consumo, tendências e inovação. Hoje, segundo Carvalho, o Dairy Vision já superou o modelo inicial e tem mais sucesso aqui no Brasil do que na Europa.

Outro segmento que tem força na realização de eventos e captação de público e conteúdo são as associações. A Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal realizou, em abril, o VIII Fórum Internacional Abisolo, no qual são reunidos dois formatos de eventos: um congresso com tópicos da área, cases e estudos e uma feira com stands e expositores. O presidente da associação, Clorialdo Roberto Levrero, destaca que o conteúdo do fórum tem a mesma qualidade de informação de um simpósio internacional, rica em fundamentação, embasamento científico e com testemunhos de players com cases de aplicação desses estudos na prática. “Tanto para o profissional de agricultura, quanto para o aluno que está se formando, a participação no evento é uma fonte de informação que muitas vezes ele não tem acesso nem mesmo dentro da universidade. Em um só local o participante tem acesso à empresa responsável pela produção, às fontes e pesquisadores que trazem estudos de fora, temos empresas de outros países que trazem tecnologia e a prática da explicação de como é feito o uso e como isso atua” afirma.

Para Levrero o crescimento do agronegócio nos próximos anos é iminente. Atualmente a Abisolo representa um faturamento de 7,8 bilhões de reais e investe 5% desse valor em Pesquisa & Desenvolvimento. O setor de nutrição vegetal é responsável por 49 mil empregos diretos e que há mais de cinco anos apresenta um crescimento robusto. “É um segmento que vai continuar crescendo com certeza, mesmo com todas as dificuldades que temos em questões de logística e falta de uma política mais definida. Nossa perspectiva é que o crescimento continue porque a demanda vai existir. Tudo vem do agro. Se a gente avaliar a economia como um todo, eu estimo que mais de 70% está ligado ao agro direta ou indiretamente”.

Do impacto positivo do agronegócio na economia surgem novos modelos de negócios especializados em nichos específicos. É o caso da empresa de Fernanda Ibañez, sócia da Formato IB, especializada em oferecer soluções personalizadas para empresas da área. “A realização de eventos norteia o sucesso do segmento. No último ano, por exemplo, realizamos 54 eventos para o mercado nacional e internacional”, ressalta. Para ela o grande atrativo e o que justifica a maciça participação dessas empresas em eventos é a união de toda a classe do segmento um um único local onde podem trocar informações e fazerem fechamentos.

Unindo forças

A organização da Fenagra, Feira Internacional da Agroindústria, optou por uma estratégia diferente: unir partes do mercado de nutrição animal. Inicialmente o evento era voltado somente para o setor de graxaria, aos poucos viram a oportunidade de agrupar o evento ao segmento de petfood, óleos e gorduras, a sociedade brasileira de óleos e gorduras (SBOG), aquafeed, e avicultura.

O público participante é de mais de 5 mil pessoas em dois dias de evento e para Daniel Geraldes, diretor-presidente da Editora Stilo, organizadora da Fenagra a previsão é de que cresça mais e mais a cada ano. “Colocando todos esses segmentos juntos a feira foi se consolidando. Para o expositor é muito interessante poder vender para três, quatro clientes diferentes na mesma feira. Ou seja, com um único investimento, um único stand, numa única feira, vende para segmentos diferentes. Ainda temos a possibilidade de colocar a área de saúde animal e suínos. Isso vai tornando a feira cada vez mais completa” afirma.

Outro fator que também foi crucial para o crescimento da feira, do ponto de vista do produtor, foi a aliança com as associações. “Para nós a parceria com essas entidades de cada segmento foi essencial. Para eles também foi muito importante porque o espaço voltado para o congresso cresceu muito ao longo desses 14 anos” aponta Daniel.

Localização

Uma preocupação em comum entre os organizadores é a cidade escolhida para sediar o evento e, ao contrário do que se imagina, a capital São Paulo não é o local mais interessante. “Em São Paulo tudo é caro para o expositor: alimentação, transporte, montagem de stand e hospedagem. Quando trouxemos a Fenagra para o interior foi quando a feira começou a crescer. Antes uma empresa que levava um funcionário, agora leva 5 ou 6”, afirma Geraldes.

Já a organização do Dairy Vision promoveu uma votação entre os participantes, que elegeram a cidade de Campinas. “Além de ser uma cidade grande e com boa estrutura, Campinas é próxima de São Paulo, que é um ponto importante. Muitas empresas do segmento agro estão nesse trecho Campinas-São Paulo. Viracopos é um Hub importante e de fácil acesso. Sem dúvida a região teve um impacto positivo importante para o crescimento do evento” declara Marcelo Carvalho.

Expectativas

Para o ano de 2019 em diante a previsão é de retomada. “Esses dois últimos anos foi um período de recessão, no qual todo mundo que estava com investimento alto teve que se readequar para a nova realidade de faturamento e desacelerou para ajustar o fluxo de caixa e a conta corrente. Agora o Brasil começa uma retomada que aconteceria independentemente da mudança de governo” afirma o presidente da Abisolo.

A Fenagra já sentiu a retomada para a próxima edição, e a expectativa é de que o público participante e o número de expositores aumentem ainda mais para 2020. “Ano passado foi difícil porque era um ano de eleição, ninguém sabia o que ia acontecer. Então o público e as empresas estavam segurando o investimento em grandes feiras porque não sabiam o que iria acontecer. Esse ano já não, já tem um novo presidente, existe um sentimento de melhora. Espero que isso se reflita na feira”, aponta Daniel.

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