Terra de oportunidades

Mão de obra qualificada, localização privilegiada e desenvolvimento a longo prazo servem de chamariz para investidores estrangeiros fazerem suas apostas na região de Campinas

Por Beatriz Steck

Os encantos da América Latina passaram a atrair investidores de segmentos diversos, que enxergam fatores como a carência, o crescimento econômico positivo a longo prazo e tamanho dos países que compõem o continente como uma oportunidade de negócio, mesmo que com uma conjuntura político-econômica turbulenta e os desafios típicos da região.

Não tem como ignorar um mercado consumidor de 207 milhões de pessoas, por isso o Brasil não fica fora dessa. Inclusive, a região de Campinas está no radar de empresas de tecnologia e infraestrutura que buscam mão de obra qualificada e alta performance, principalmente em tecnologia de ponta. Para o Secretário de Desenvolvimento Econômico, Social e Turismo, André Von Zuben a questão da tecnologia e Pesquisa e Desenvolvimento é, sem dúvida, o principal atrativo da região. “Temos toda a infraestrutura de mão de obra e universidades reconhecidas internacionalmente. Além disso, é uma região metropolitana, rica e forte economicamente” aponta.

A qualidade de vida também é considerada um ponto a destacar. “As pessoas que vierem para trabalhar nessas empresas vão querer morar em um local gostoso e agradável, que tenha bons serviços, saúde e escola para os filhos” completa Von Zuben.

Nos últimos anos somente as indústrias chinesas de setores como energia, logística, agricultura, automobilístico e construção fizeram um investimento de mais de US$ 20 bilhões e continuam apostando no crescimento da economia brasileira. A aquisição da CPFL pela chinesa State Grid, por exemplo, é símbolo do apetite asiático, que já assumiu o controle acionário de 14 empresas e nove projetos de transmissão de energia elétrica.

Outro aspecto que interessa é justamente a carência do Brasil em algumas áreas como infraestrutura e o uso de energias renováveis. A necessidade de fechar essa lacuna e fazer com que o País deixe de ser uma área em desenvolvimento para ser totalmente desenvolvida, no longo prazo, é visto como o potencial de mercado.

A chinesa BYD é um exemplo de empresa que veio explorar um mercado ainda muito insuficiente no brasil: o de energias renováveis e mobilidade elétrica, duas tendências internacionais. Em relação ao primeiro ano de atuação da empresa no Brasil, o diretor de Marketing, Sustentabilidade e Novos Negócios, Adalberto Maluf, está bastante otimista. “A expectativa de crescimento para 2018 é de no mínimo 300%, assim como crescemos 300% no ano passado. É um mercado ainda pequeno, mas que está crescendo muito”, afirma.

A postura confiante caminha ao lado de mais desenvolvimento e capacitação. “A BYD fez um investimento na criação do Centro Brasileiro de Pesquisa em Energia Solar Fotovoltaica na UNICAMP” declara Maluf. O investimento consiste na construção de um laboratório para capacitar novos instaladores e criar mercado para o desenvolvimento dessa nova tecnologia.

Para alcançar o objetivo de ser o maior player de energia renovável e mobilidade elétrica da América Latina, a empresa se prepara aos poucos. “Já somos líderes nos mercados do Chile, Colômbia e Uruguai. Temos como meta ter pelo menos 30% do market share e nos consolidar como a estrutura do melhor pós venda para os clientes da América Latina” acrescenta.

A estratégia foi começar a operação pelos países menores, estruturar todo o trabalho para, assim, abocanhar o mercado brasileiro, maior, mais competitivo e burocrático. “Preferimos ir com passos mais lentos para ir trabalhando em criar o produto certo, adaptado às condições brasileiras, e assim poder expandir. Fizemos a lição de casa, entramos no contexto certo e agora já sabemos os principais produtos e como eles devem ser, quais são as características do mercado brasileiro e, agora, pretendemos aumentar a produção e diferenciação dos produtos e componentes e nos consolidar como o maior player do País” afirma Maluf.

O caminho trilhado parece, de fato, ser o melhor. No ano passado a BYD foi a maior vendedora de carros e ônibus elétricos, mesmo que o mercado ainda seja pequeno. Além disso, já implementaram projetos pilotos com empresas e governos. “Ajudamos a CPFL a montar toda a estrutura de recarga pelo Brasil. Estamos colocando alicerces para que esse mercado possa se expandir com sustentabilidade nos próximos anos” complementa.

A malha rodoviária, aeroporto de carga que facilita a logística, as universidades e o ecossistema de tecnologia foram os principais atrativos para a Optel, empresa canadense que tem como foco um mercado já consolidado no Brasil: a indústria farmacêutica, abrir as portas na região de Campinas.

“O mercado farmacêutico brasileiro está entre os maiores do mundo. Como este é um dos setores no qual a OPTEL está mais presente, existe um grande potencial de vendas. Além disso, a maioria dos nossos clientes se encontram no estado de São Paulo” afirma Amanda Neves, diretora geral da OPTEL Group no Brasil. A expectativa da empresa é de crescimento no mercado interno e ser um hub para toda a América Latina.

De dentro para fora

Quando se trata de exportação de produtos o agronegócio é uma grande aposta. A região tem grande potencial agrícola e viu na exportação de frutas para o Canadá uma oportunidade. “O CCBC realiza um projeto de exportação de frutas frescas para o Canadá por via aérea pelo qual já foram exportadas mais de 300 toneladas de frutas como laranja, caqui, figo, limão, lichia, abacate, atemoya e pêssego. As vezes o pessoal da região nem imagina que as frutas produzidas lá estão sendo vendidas em um supermercado do Canadá” declara Paulo de Castro Reis, diretor de relações institucionais e negócios do Câmara de Comércio Brasil e Canadá.

Outro movimento que iniciou há alguns anos, mas ainda continua intenso é o fluxo de pessoas. Para Paulo, o número de pessoas que procura mudar do Brasil para o Canadá ainda é muito maior do que o inverso. “O Canadá é o país do mundo que mais recebe brasileiros. Tem mais estudantes brasileiros no Canadá, por exemplo, do que nos Estados Unidos, Inglaterra e França. É um país muito receptivo para imigrantes que procuram tanto uma experiência profissional quanto estudantil” completa.

Dificuldades

Apesar das oportunidades, ainda existem desafios e um panorama instável no governo e economia brasileiros que preocupam investidores estrangeiros. Entre os principais – e unanimidade entre os entrevistados – estão a política fiscal e burocracia. “Temos uma série de taxas, impostos, tributos e regulamentos que tornam a administração de uma empresa muito mais complicada que em outros países. Aqui no Brasil uma empresa precisa de um departamento ou uma pessoa dedicada somente a pagamento de imposto” afirma Paulo Reis.

Adalberto Maluf, da BYD, enxerga o Brasil como um País difícil para o empresário fazer negócios. “Além do complexo sistema tributário, o mercado brasileiro é muito protegido e tem muita barreira para produtos importados, o que faz com que os processos fiquem muito mais lentos do que em outros países como o Chile e Uruguai.

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