Mulheres na tecnologia e seu potencial de inovação

Elas estão conquistando a área de tecnologia, e não pretendem parar tão cedo

“A frase mais perigosa que existe em um idioma é ‘Nós sempre fizemos assim’”. Essa famosa frase pertence a ninguém menos que a Almirante Grace Hopper, uma das mulheres mais importantes da história da informática. Criadora do primeiro compilador, do termo “bug” e também conhecida como a “vovó do COBOL”, Hopper não aceitou a zona de conforto e desbravou a tecnologia, sendo referência em pioneirismo e, atualmente, inspiração para diversas mulheres que buscam um espaço no mercado de tecnologia.

Assumir riscos não foi um problema para a Almirante e não tem sido problema para as mulheres do século 21, que estão revolucionando um setor que cresce, cada vez mais, porém enfrenta dificuldades para solucionar uma antiga e urgente questão: a falta de mulheres no setor. Elas ainda são minoria em ambientes acadêmicos e nas divisões técnicas das gigantes da área. Além disso, as mulheres que entram no mercado de trabalho lidam ainda com desigualdade salarial e dificuldades que suas contrapartes masculinas não enfrentam.

Mas a situação nem sempre foi assim. Na primeira turma do bacharelado em Ciência da Computação do IME (Instituto de Matemática e Estatística) da USP, em 1974, 70% dos alunos eram mulheres. O primeiro algoritmo foi criado em 1842 por uma mulher: Ada Lovelace. Matemática e escritora, Ada revolucionou a tecnologia e passou a ser considerada a mãe da programação.

A defesa da ideia de que tecnologia seria uma vocação para meninos não condiz com a história da programação. O mercado de tecnologia, no entanto, muitas vezes é mais restritivo a mulheres do que outros. De acordo com o S&P 100, ranking compilado pela Standard & Poor’s, apenas 20% das maiores empresas do mundo têm ao menos uma diretora. Já no Vale do Silício, o polo de inovação mais famoso do mundo, isso acontece em apenas 10% das empresas.

Descendo na cadeia hierárquica, o problema persiste. Apenas 30% dos funcionários do Google são mulheres e, considerando apenas a divisão de engenharia, o número cai para 17%. No Brasil, os índices são ainda menores: no centro de engenharia de Belo Horizonte, apenas 10% dos engenheiros são mulheres. A porcentagem de funcionárias mulheres do Facebook é de 31%, ao lado de 30% na Apple e 30% no Twitter. Um estudo da Harvard Business School aponta também que apenas 10% dos aportes financeiros são feitos em startups com mulheres no comando.

Como apontado pela PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), apenas 20% das 580 mil pessoas que trabalhavam com tecnologia em 2009 eram mulheres. Já em 2010, essas mulheres recebiam um salário 34% menor que os homens. Em 2016, dados da Sociedade Brasileira de Computação mostram que somente 15% dos estudantes de cursos de Ciência da Computação são mulheres.

Ainda de acordo com a PNAD de 2009, 79% das mulheres desistem dos cursos de Tecnologia da Informação logo no primeiro ano. No trabalho, uma publicação da Harvard Business Review mostra que mulheres são duas vezes mais propensas a abandonar empresas de tecnologia do que homens (41% contra 17%).

No Brasil, muito potencial de inovação é perdido devido à desigualdade de gênero e à ausência de mulheres no setor de tecnologia. A eficiência no desempenho e na produtividade dos funcionários de uma empresa de tecnologia relaciona-se diretamente com a diversidade de gênero e a inclusão de mulheres na equipe, o que, por sua vez, aumenta a eficácia e os lucros da empresa.

Uma pesquisa liberada em 2016 pelo Peterson Institute for International Economics, uma instituição sem fins lucrativos, em parceria com a EY, mostrou que empresas com maior diversidade de gênero em posições de liderança têm um melhor desempenho financeiro.

A pesquisa, realizada em 21.980 empresas distribuídas em 91 países, percebeu que um aumento de zero para 30% de mulheres em posições de liderança está associado a um aumento de 15% na lucratividade. Em 2015, outra pesquisa realizada pela McKinsey apontou que, se as mulheres alcançassem a paridade trabalhista em relação aos homens, a economia cresceria 25%.

A raiz do problema

A pesquisadora Jane Margolis, em seu livro Unlocking the Clubhouse: Women in Computing (“Entrando no clubinho: mulheres na computação”, em tradução literal), mostra que metade das famílias americanas escolhe colocar o computador da casa no quarto do filho, graças à ideia de que computadores são brinquedos exclusivos para meninos.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, em inglês) publicou em 2012 um estudo realizado em 65 países participantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). De acordo com a publicação, menos de 5% das meninas almeja a uma carreira em computação e engenharia, enquanto 17% dos meninos consideram a área. Essa lógica permeia ainda os ambientes acadêmicos e profissionais.

A Sociedade Brasileira de Computação (SBC) mostrou em dados divulgados em 2016 que, nos cursos de Ciência da Computação e Engenharia, apenas 15% dos alunos matriculados são mulheres. O Anuário Estatístico da Escola Politécnica da USP mostra que, em 2015, 81% dos alunos de graduação são homens.

Quando analisamos o mercado brasileiro de TI, apenas 17% dos programadores são mulheres. Esse cenário não é exclusivo das terras tupiniquins: um censo realizado pelo governo norte-americano em 2014 aponta que mulheres ocupam 25% das vagas no setor de tecnologia, e ganham 10 mil dólares a menos que os homens, ocupando os mesmos cargos.

Menos de 25% da força de trabalho STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) nos Estados Unidos é composta por mulheres. Outra questão relevante é o fato de que 56% das mulheres que trabalham nos setores de ciência, engenharia e tecnologia, mesmo após acumularem cerca de 10 ou 20 anos de experiência em suas áreas de atuação, abandonam o setor antes de atingirem cargos de alta-liderança.

A pesquisa, realizada pelo Center for Talent Innovation, contudo, aponta que 80% das mulheres inseridas no setor amam suas atuações. Para as mulheres na tecnologia, quanto maior o avanço na carreira, mais difíceis e sinuosos ficam os caminhos. Em contrapartida, uma pesquisa realizada em setembro de 2015 pelo McKinsey Global Institute mostra que a equidade de gênero no mundo pode acrescentar aproximadamente US$ 28 trilhões – ou 26% – ao PIB global em 10 anos.

A ONU Mulheres alertou, em 2017, que as mulheres estavam de fora dos principais empregos gerados pela revolução digital, configurando, atualmente, somente 25% da força de trabalho da indústria digital.

Pensando nisso, o grupo Software Freedom Conservancy desenvolveu o Outreachy, um programa de estágios que visa a inclusão de pessoas com baixa representatividade no mundo de software livre. “Trabalhei por três meses na Mozilla a distância (porém full time) e aprendendo muito. O projeto foi um divisor de águas para mim porque foi ali que comecei a me assumir como programadora. Sempre que posso, eu palestro sobre ele para que mais meninas entrem”, relata Ana Rute Mendes, co-fundadora, designer front-end e responsável pela equipe técnica da Mupi, startup educacional que oferece cursos online de formação para educadores.

Foi buscando um cenário mais inclusivo e seguro para mulheres que surgiu também o “Mete a Colher”, um aplicativo criado por seis amigas de Recife, buscando combater a violência contra a mulher. “O aplicativo busca conectar mulheres que precisam de ajuda com outras que querem ajudar oferecendo apoio emocional, ajuda jurídica e ou oportunidade de trabalho. Quando uma mulher que deseja ajudar responde um pedido de ajuda, um chat é aberto e elas começam a conversar, podendo se ajudar”, relata Lhaís Rodrigues, uma das idealizadoras.

“Oferecemos ainda uma lista de serviços com centros de apoio psicológico, hospitais e Delegacias da Mulher próximos (atualmente, somente de Recife e região metropolitana), com instruções para chegar e telefones para contato”.

“Atualmente, temos mais de 15 mil downloads na Play Store e quase 10 mil usuárias ativas na nossa rede. Em grande maioria, os pedidos são respondidos em torno de 48 horas e temos mais de mil pedidos de ajuda (em grande parte de apoio emocional), a cada pedido de ajuda temos 3 a 5 respostas por usuária”, completa.

Em busca da mudança

As mulheres estão se unindo e criando redes de apoio baseadas em empatia e companheirismo, buscando reverter ou pelo menos minimizar as disparidades vivenciadas na área, dando voz às mulheres da tecnologia. A comunidade PyLadies consiste em um grupo de mulheres desenvolvedoras que programam usando a linguagem Python e é um dos muitos exemplos de redes de apoio para mulheres da tecnologia.

Daniela Palumbo, fundadora da comunidade PyLadies de Campinas (SP), conta que um dos principais objetivos do grupo é proporcionar visibilidade e empoderamento: “Olhar para mulheres que são programadoras e já fazem parte do mundo de TI manda a mensagem que as mulheres não precisam se esconder. Elas podem tomar posições de liderança, fazer palestras, organizar eventos e serem diretoras de empresas”.

Foi aplicado também, em Campinas, o programa Women Techmakers, um braço do Google Developers Group Campinas. Thaíssa Candella, organizadora e fundadora do programa na cidade, pontua que a iniciativa tem como objetivo a representatividade e capacitação feminina, de forma que mais mulheres estejam aptas a programar e falar sobre isso.

“Muitas pessoas esperam por um líder para que possam ser líderes também. Esperando uma programadora para que possam ser programadoras também. Precisamos instigar, tanto em meninas quanto em meninos, a vontade de serem os primeiros. Costumo falar que, se não existe ninguém fazendo isso, que eu seja a primeira, porque assim posso ser inspiração para outras pessoas”, revela.

Já a UPWIT – Unlocking the Power of Women for Innovation and Transformation ou Destravando o Poder das Mulheres para Inovação e Transformação, se trata de uma consultoria de inteligência de gênero e inovação, lançada pela consultora de comunicação e tecnologias digitais Carine Roos. Roos é também co-criadora de projetos emancipadores de mulheres, como o Programa ELAS, o MariaLab Hackerspace, o blog “Faça Você Mesma” no Link-Estadão e a iniciativa 33 Dias Sem Machismo.

A UPWIT busca mostrar a diversidade como um vetor de inovação em empresas e também um incentivo e preparo da liderança feminina, usando informações do mercado e cenário atual brasileiro no preparo de suas ações e estratégias, almejando uma transformação social. “Somos uma consultoria na área de gênero com foco em tecnologia e inovação. Desenvolvemos workshops, treinamentos, capacitação e desenvolvimento pessoal. Percebemos que não é somente importante ter capacitação técnica, mas também capacitação de soft skills como, por exemplo, uma comunicação mais assertiva”, explica Carine Roos.

Mais de 700 mulheres já foram afetadas pelos projetos, sendo elas executivas, empreendedoras, desenvolvedoras, programadoras, designers e outras profissionais que buscam um novo olhar para o mercado e suas próprias carreiras. “Tem sido muito bacana ver o resultado disso, pois medimos o desempenho das participantes antes e depois dos treinamentos, usando nossos indicadores de performance. Em um dos últimos treinamentos que fizemos, 76% delas mostraram um aumento na produtividade”, acrescenta. Para incentivar a diversidade, a UPWIT oferece também palestras e workshops dentro de empresas, usando o design thinking para trazer maior equidade de gênero ao ambiente corporativo.

Iniciativas como plataformas educacionais com preços acessíveis, ou até mesmo gratuitos, também estão ganhando espaço, oferecendo cursos online relacionados à tecnologia. O coaShe., uma plataforma de mentoria e coaching para mulheres de tecnologia, faz parte desse aglomerado de iniciativas inovadoras, ganhando destaque ao vencer o Campus Mobile 2016. “Nesta plataforma, uma mulher pode procurar por um tema em que ela deseja saber mais sobre ou oferecer mentoria em algum tema em que ela tenha familiaridade”, conta Carol Bonturi, uma das fundadoras da plataforma.

“Ao invés de reforçar a falta de mulheres, nossa solução iluminava as mulheres em grandes posições sociais profissionais. Então, uma estagiária do setor mobile, por exemplo, que se sentisse hostilizada no ambiente de trabalho poderia transformar seu sentimento de isolamento ao encontrar uma mentora; ou uma gerente da área de processadores poderia encontrar uma mentora para trocar experiências sobre questões técnicas de hardware”, conta. “Sem uma hierarquia imposta, a proposta era transformar as relações de trabalho das mulheres de tecnologia, para que elas pudessem trocar experiências e participar em comunidade de um processo de desenvolvimento mútuo”.

Anos após Ada Lovelace e outras mulheres revolucionarem a programação, a desigualdade de gênero tomou novas proporções e a ideia de que garotos devem brincar com computadores se tornou uma narrativa. A demanda por profissionais qualificados para a área de tecnologia, no entanto, é crescente. De acordo com dados da Associação para a Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), o Brasil pode chegar em 2020 com uma carência de até 408 mil profissionais de TI, e serão necessárias mulheres para preenchê-las.


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