A força da liderança e do empreendedorismo feminino

Mulheres empreendedoras estão arregaçando suas mangas e mostrando que seu lugar é nos negócios

Antes mesmo das 9 horas da manhã – horário em que abre a La Cakerie, loja de doces e bolos gourmet localizada em Campinas (SP) – clientes já aguardavam na porta. A história do empreendimento começou com Carol Machado, formada em Gastronomia e Administração e uma das sócias da La Cakerie, que fazia bolos em sua casa para aniversários e confraternizações de família. Os bolos faziam muito sucesso e, após serem postados no Instagram, chegavam mais e mais encomendas de novos clientes, que se apaixonaram por suas receitas.

Foi então que Fernanda, sua irmã, se propôs a ajudar com os pedidos e o ritmo começou a se intensificar. “Nos juntamos e resolvemos, então, abrir a La Cakerie. No começo, éramos só eu e minha irmã mas, mais tarde, nosso outro irmão veio nos ajudar também e se tornou um negócio completamente de família”, conta Carol. “Nós zelamos muito pela qualidade de nossos produtos e nossos ingredientes. Além disso, visamos o capricho nos detalhes, atendimento e em tudo que fazemos. Antes de abrir a loja, até fizemos uma pesquisa com nossos clientes e a resposta foi que eles também zelam por isso: atendimento e qualidade”.

E a La Cakerie não foi a única a nascer nesse novo cenário. De acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2016, realizada pela parceria entre o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), 51,5% de todas as empresas abertas nos últimos três anos e meio foram criadas por mulheres. Já em pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres são chefia em quatro de cada dez lares no Brasil e, dentre elas, 41% têm negócio próprio. No varejo, as mulheres empreendedoras estão,cada vez mais, marcando presença no mercado de trabalho e no mundo dos negócios, além de impactarem diretamente a economia nacional. Em 2014, a ONU criou o Dia Internacional da Mulher Empreendedora, comemorado em 19 de novembro.

Diante dessas mudanças, novos negócios começaram a surgir no mercado, criados por mulheres que querem mudar de vida. Monyque Artese e sua mãe, Angélica Ignácio, são sócias e fundadoras da Pantala Calçados, que existe há aproximadamente dois anos. Com uma nova proposta, a marca busca trabalhar com produtos artesanais e sustentáveis, sem perder o estilo e o bom gosto. “Produzimos algo diferente e há muito amor envolvido na criação”, conta Monyque. “Queremos mostrar que é possível estar confortável e viver normalmente sem explorar pessoas, animais ou o meio ambiente. A principal coisa que pregamos é a não exploração e um mundo harmônico”.

“A insatisfação é o grande problema. No nosso caso, tanto a da minha filha quanto a minha. Trabalhei em grandes empresas e é difícil se alocar no mercado. As empresas muitas vezes não te ouvem e você não consegue fazer determinadas coisas”, conta Angélica. Para ela, um dos maiores problemas no mercado é o desmerecimento que cresce à medida que se envelhece. “As pessoas começam a acreditar que você está ficando obsoleta. Com a empresa, o mais legal é que tudo que acontece é fruto do seu trabalho”.

Muito além de ser dona de seu próprio negócio e lucrar muito com ele, o empreendedorismo feminino é uma ferramenta que dá poder, visibilidade e espaço para as mulheres, impactando diretamente as comunidades no que diz respeito às questões de gênero e igualdade. Além disso, o ato de empreender traz novas perspectivas para mulheres que querem mudar suas realidades.

Foi buscando essa mudança que Débora Jachetta, dona da empresa Débra Arteira, transformou seu sonho em realidade. Movida por sua criatividade e sentindo que trabalhar com arte era sua vocação, Débora começou fazendo convites e lembranças de aniversário para amigos e família. Foi em fevereiro de 2016 que, após se arriscar fazendo chalkboards para decoração de festas, ela viu seu negócio crescer.

“O caminho está cheio de pedras, obstáculos e desafios e, às vezes, as coisas não dão certo na primeira vez. A diferença entre quem vence e quem fracassa está diretamente ligada à atitude e à persistência. Muitas vezes, é após um fracasso que vivenciamos o crescimento”. Enfrentar medos, traçar metas e acreditar em seu potencial são os principais conselhos que daria para mulheres que estão pensando em empreender. “As mulheres são capazes de transformar o mundo”, completa.

A busca por uma nova forma de trabalhar foi também o que motivou Mariana Prado e sua sócia a criarem a Coloreh, marca de vestuário para bebês. “Em 2016, depois de muitas dúvidas, as conversas sobre abrir um negócio se fortaleceram, as oportunidades apareceram, amigos ajudaram muito e a vontade de criar uma marca de roupas para bebês brasileira que fosse bonita, de qualidade e com um preço justo foi colocada em prática no ano de 2017”, relata Mariana. “Estamos abrindo novos espaços, novas economias e novas formas de sucesso. O empreendedorismo feminino e materno é uma parte importante disso, mas acredito que tem muitas outras iniciativas que vão remexer muito essa realidade”.

A coletividade é essencial para que as mulheres empreendedoras tenham sucesso nos seus projetos. Com propósito e espírito de equipe, as conquistas são cada vez maiores. Para as mães, o empreendedorismo pode ser a alternativa que possibilita a conciliação entre trabalho e maternidade, proporcionando uma liberdade e flexibilidade inviável no mercado formal.

Nasce um bebê, nasce uma profissão

Em abril de 2017, as amigas Carmem Madrilis e Lia Castro criaram o Grupo M.Ã.E. (Maternidade Aliada ao Empreendedorismo). “O grupo foi lançado oficialmente em agosto, em Campinas (SP), e tem como objetivo o incentivo, estímulo e visibilidade ao empreendedorismo materno. Fazemos workshops de capacitação com especialistas, eventos de inspiração sobre maternidade, encontros de relacionamento e networking, assim como a divulgação dos negócios maternos”, diz Lia.

Grávidas ao mesmo tempo, Carmem e Lia idealizaram o projeto buscando ajudar mães através de suas experiências como executiva e empreendedora, respectivamente. Acima de tudo, as amigas queriam ajudar outras mulheres dividindo também suas experiências como mães. “De agosto pra cá já falamos com mais de três mil pessoas pessoalmente e mais de 45 mil pessoas online. Temos centenas de associadas ativas em seis estados do Brasil, e no primeiro semestre de 2018 lançaremos uma plataforma on-line para aproximar ainda mais nossas mães empreendedoras”, conta.

Uma pesquisa recente feita pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) mostra que 48% das mulheres são demitidas logo após a licença maternidade. “Ouvimos muitos relatos assim de nossas associadas e isso é muito triste! Para que essa mãe, mulher e profissional se realize profissionalmente, ganhe seu dinheiro e ainda consiga criar um novo ser humano do zero, ela enfrenta novos desafios, se reinventa e empreende”, diz Lia. “O desejo de empreender pode surgir na vida de uma mulher por inúmeros motivos. Eu, por exemplo, sou empreendedora há quase 10 anos, mas sou empreendedora materna há dois. O empreendedorismo materno surge como uma alternativa depois que a mulher se torna mãe para conseguir ter mais flexibilidade e ficar mais tempo com os filhos, participando da sua criação e desenvolvimento. (destacar) Ou seja, o foco passa a ser a maternidade, e o novo negócio terá que se adequar a ela”.

Em Sumaré (SP), Kézia Chaves foi responsável pela criação de outra rede de apoio ao empreendedorismo materno, a Mães Empreendedoras do Villa Flora, que hoje conta com aproximadamente 30 participantes. O grupo surgiu de uma necessidade de divulgação, desenvolvimento e apoio mútuo. “Nosso projeto é voltado especificamente para mães, pois, quando você trabalha com pessoas que estão na mesma situação que você, consegue mais empatia para poder dar algumas negativas e trabalhar em horários alternativos, por exemplo”, explica Kézia. “As participantes do projeto se sentem inseridas no mercado de trabalho, percebendo que para elas também é possível. A maior parte das mulheres do grupo eram funcionárias de empresas e, após a gravidez, viram as portas se fecharem e se sentiram preteridas pelo mercado”.

Ainda de acordo com a GEM 2016, a taxa de negócios abertos por necessidade (e não por oportunidade, como deveria ser) é de 48% entre mulheres, contra 37% dos homens. A pesquisa também aponta que mulheres empreendedoras são mais escolarizadas que homens, porém recebem salários menores. O percentual de mulheres que ganham até três salários mínimos é de 73%, enquanto para homens esse número alcança 59%.

O denominador comum entre essas mulheres é que elas têm um desejo por mudança. Algumas saíram de empregos de longa data e enfrentaram o desafio de empreender e abraçar novas responsabilidades, preparadas para os riscos que viriam. Essas mulheres não têm medo de arregaçar as mangas e encontrar oportunidades no dia a dia, com uma fibra inabalável. Essa é a palavra-chave: resiliência. Resiliência para encarar os inúmeros desafios profissionais e pessoais que surgem no caminho, aliada ao amor pelo que fazem e que as impulsiona todos os dias. As mulheres estão tomando seus lugares nos negócios e inspirando outras ao redor, mostrando que é possível viver em um mundo mais justo e igualitário.


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